
O avanço de um Super El Niño pode ampliar os impactos sobre a produção de alimentos e a geração de energia no Brasil nos próximos meses. Segundo análise do Citi, o aquecimento do Pacífico equatorial atingiu níveis extremos em setembro, enquanto as alterações no regime de chuvas podem se intensificar entre o fim de 2026 e o início de 2027.
O fenômeno pode provocar efeitos diferentes conforme a região, incluindo períodos de seca, chuvas intensas e mudanças na produção agrícola. Além do Brasil, países como Colômbia e Peru aparecem entre os mais expostos aos impactos na América Latina.
De acordo com a análise, a temperatura da superfície do Pacífico equatorial apresentou anomalias próximas de 3°C até 14 de setembro. O Índice Oceanic Niño, estimado pelo Citi, chegou a cerca de 2,3°C no início do mês, acima do patamar de 2°C utilizado para caracterizar um Super El Niño.
Impactos sobre alimentos
Um dos principais riscos está relacionado à agricultura. O Citi aponta que alterações climáticas provocadas pelo fenômeno podem reduzir a oferta de determinadas commodities e, consequentemente, pressionar os preços dos alimentos.
Entre os produtos identificados como mais expostos estão óleo de palma, café robusta, arroz, açúcar, cacau e trigo australiano. Os possíveis efeitos sobre algumas culturas podem aparecer ao longo dos próximos seis a 12 meses.
O cacau também aparece entre os produtos sob atenção. Segundo estimativa citada pela Bloomberg Intelligence, a produção mundial pode cair cerca de 7,2% na safra 2026-2027 caso o El Niño agrave os problemas nas lavouras da África Ocidental. Costa do Marfim e Gana respondem por aproximadamente metade da oferta mundial.
O impacto sobre os preços, porém, não deve ser uniforme. Estoques agrícolas, localização das chuvas e capacidade de cada país de absorver eventuais perdas podem influenciar a dimensão dos efeitos sobre a inflação.
Brasil pode enfrentar pressão na geração de energia
A geração hidrelétrica é outro ponto de atenção para o país. O Brasil aparece como o território latino-americano com maior exposição energética na análise da Bloomberg Intelligence.
A estimativa aponta um impacto potencial de aproximadamente 135 milhões de barris equivalentes de petróleo, equivalente a 5,6% da demanda primária de energia brasileira. A projeção considera principalmente uma possível redução da geração hidrelétrica combinada ao aumento do consumo de eletricidade para refrigeração.
Ao mesmo tempo, temperaturas mais elevadas podem aumentar a procura por eletricidade. A Bloomberg Intelligence estima que a maior necessidade de refrigeração possa representar cerca de 50 milhões de barris equivalentes de petróleo adicionais em consumo energético no país até 2026.
Efeitos podem chegar à logística
Os impactos não ficam restritos às lavouras e aos reservatórios. Períodos prolongados de seca também podem prejudicar o transporte de cargas por rios.
Durante a estiagem de 2023-2024, a capacidade das barcaças fluviais chegou a cair 50%, o que levou ao redirecionamento de cargas de grãos e carne para rodovias e ferrovias. Uma repetição desse cenário poderia aumentar os custos logísticos e afetar o escoamento da produção.
No Mato Grosso, a persistência da seca também é apontada como um risco para culturas como soja, cana-de-açúcar e milho durante o ciclo agrícola de 2027.
Fenômeno terá efeitos diferentes na América Latina
Os impactos do El Niño não serão iguais em todos os países. No Peru, por exemplo, o fenômeno pode provocar chuvas intensas no litoral norte e central, enquanto áreas dos Andes do Sul podem enfrentar seca. A pesca, a agricultura e a infraestrutura também estão entre os setores de risco.
Na Colômbia, a possibilidade de redução das chuvas preocupa por causa da dependência da geração hidrelétrica. Apesar disso, os reservatórios do país estavam ligeiramente acima da média sazonal até meados de setembro, segundo a análise citada no material.
A intensidade do fenômeno, por si só, não determina o tamanho dos impactos econômicos. A distribuição das chuvas, a duração das secas, os estoques agrícolas, o nível dos reservatórios e a capacidade de resposta de cada país serão fatores importantes para definir os efeitos nos próximos meses.
Fonte: Meio Norte