Por Raimundo Marques

Se o seu negócio não funciona sem você, você não tem uma empresa. Tem um emprego

Reportagem Sertão Atual

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Raimundo Marques Empreendedor, escritor e especialista em gestão.
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Quero começar este texto fazendo uma pergunta muito simples: se você precisasse passar 30 dias longe da sua empresa, o que aconteceria?

Ela continuaria funcionando? Sua equipe saberia tomar decisões? Os clientes continuariam sendo atendidos? Os pagamentos seriam feitos, as vendas aconteceriam e os problemas seriam resolvidos?

Ou, antes mesmo de terminar o primeiro dia, o seu telefone já estaria cheio de mensagens?

Essa é uma reflexão que faço com frequência quando observo empresas e converso com empresários. Existe uma situação muito comum, principalmente nos pequenos e médios negócios: o dono se tornou a pessoa mais ocupada da empresa.

Ele vende, compra, cobra, paga, resolve problema de funcionário, atende cliente, negocia com fornecedor, confere o caixa e autoriza até aquilo que poderia perfeitamente ser decidido por outra pessoa.

E existe até um certo orgulho nisso.

“Se eu não estiver aqui, isso não funciona.”

Eu entendo de onde vem esse sentimento. Afinal, foi você quem construiu o negócio. Provavelmente conhece cada detalhe dele. Sabe onde aperta, onde dá problema e, muitas vezes, consegue resolver em cinco minutos aquilo que outra pessoa levaria uma hora para resolver.

Mas existe uma provocação importante aqui: ser indispensável para a sua empresa pode parecer uma qualidade, mas também pode ser um dos maiores problemas dela.

Estar ocupado não significa estar gerindo

Eu valorizo muito trabalho e dedicação. Nunca acreditei nessa ideia de que construir um negócio é simples ou que basta ter uma boa ideia, delegar tudo e esperar o dinheiro entrar.

Empresa exige presença.

O problema começa quando presença vira dependência.

Quando qualquer desconto precisa da autorização do dono, qualquer problema com um cliente precisa chegar ao dono, qualquer contratação depende exclusivamente dele e qualquer decisão um pouco diferente termina na sua mesa, alguma coisa está errada.

Porque existe um limite para isso.

Se hoje dez decisões dependem de você e amanhã sua empresa dobrar de tamanho, provavelmente serão vinte. Se ela crescer cinco vezes, talvez sejam cinquenta.

E chega um momento em que o próprio empresário se transforma no gargalo da empresa que está tentando fazer crescer.

Talvez esse seja um dos grandes paradoxos do empreendedorismo: a pessoa que mais deseja o crescimento do negócio pode ser justamente aquela que está limitando esse crescimento.

Uma empresa precisa de gente preparada

Gosto muito de trazer o esporte para essa discussão porque ele nos ensina bastante sobre liderança.

No livro Transformando suor em ouro, Bernardinho reúne aprendizados construídos ao longo de sua trajetória no vôlei e apresenta a chamada Roda da Excelência, relacionando elementos como liderança, trabalho em equipe, disciplina, comprometimento e preparação.

E existe uma lógica do esporte coletivo que serve perfeitamente para uma empresa: ninguém ganha sozinho.

Você pode ter o melhor atacante do mundo. Mas alguém precisa receber a bola. Alguém precisa levantar. Alguém precisa defender.

Existe treinamento, estratégia, preparação e, principalmente, existe uma equipe.

Bernardinho não poderia entrar em quadra para jogar quando alguma coisa desse errado. O trabalho dele era preparar aquelas pessoas para que, quando chegasse a hora da decisão, elas soubessem o que fazer.

Para mim, liderança empresarial tem muito disso.

O bom líder não é aquele que resolve todos os problemas da equipe. É aquele que constrói uma equipe cada vez mais capaz de resolver problemas sem ele.

“Mas ninguém faz como eu”

Talvez essa seja uma das frases mais repetidas por empresários.

“Eu já tentei delegar, mas ninguém faz como eu.”

E provavelmente ninguém fará exatamente como você. Pelo menos não no começo.

Você conhece aquele negócio há anos. Acumulou experiência, errou, acertou, perdeu dinheiro, ganhou dinheiro e aprendeu coisas que talvez nunca tenham sido colocadas no papel.

Não é razoável entregar uma responsabilidade hoje para alguém e esperar que amanhã essa pessoa tenha o mesmo nível de conhecimento que você levou anos para construir.

Delegar também exige ensinar.

Exige acompanhar.

Exige corrigir.

E exige permitir que as pessoas tomem algumas decisões diferentes das que você tomaria.

Existe uma contradição que vejo em muitas empresas: o empresário reclama que ninguém tem iniciativa, mas, quando alguém toma uma iniciativa diferente daquilo que ele faria, essa pessoa é repreendida.

Depois de algumas experiências assim, o funcionário aprende.

Aprende a não decidir. Aprende a perguntar tudo. Aprende que é mais seguro esperar pelo dono.

E algum tempo depois o empresário diz:

“Está vendo? Se eu não estiver aqui, ninguém resolve nada.”

Talvez ninguém resolva porque ninguém teve espaço para aprender a resolver.

Seu melhor funcionário não pode ser você para sempre

No início de uma empresa, é absolutamente normal que o dono seja o melhor vendedor, o melhor negociador e a pessoa que mais conhece o produto.

O problema é continuar assim para sempre.

À medida que o negócio cresce, a função do empresário também precisa mudar.

Aos poucos, ele precisa deixar de ser apenas a pessoa que faz para se tornar cada vez mais a pessoa que constrói as condições para que as coisas sejam feitas.

Isso significa desenvolver pessoas, criar processos, acompanhar indicadores, definir responsabilidades e pensar no futuro.

Não significa abandonar a operação.

Significa não se tornar prisioneiro dela.

Existe uma diferença enorme entre estar todos os dias na empresa porque você quer estar e estar todos os dias porque, se você não estiver, ela não funciona.

Faça um exercício

Nos próximos dias, observe quantas vezes alguém procura você para tomar uma decisão.

E, sempre que isso acontecer, pergunte a si mesmo:

Essa decisão realmente precisava chegar até mim?

Se a resposta for não, faça uma segunda pergunta:

O que falta para que essa pessoa consiga tomar essa decisão sozinha da próxima vez?

Talvez falte treinamento. Talvez falte um processo. Talvez falte informação. Talvez ela não saiba até onde pode decidir.

Ou talvez falte apenas confiança.

Porque delegar não significa perder o controle.

Delegar significa criar uma empresa cujo controle não dependa da sua presença o tempo inteiro.

E se você desaparecesse por 30 dias?

Quem empreende coloca muito de si dentro de uma empresa. Existe dinheiro, história, risco, noites mal dormidas e, muitas vezes, anos de vida investidos naquele negócio.

É natural querer acompanhar tudo.

Mas chega um momento em que crescer também significa aprender a soltar algumas coisas.

No vôlei, Bernardinho podia orientar, treinar, cobrar, corrigir e preparar. Mas, quando a bola subia, eram os jogadores que precisavam decidir.

Na empresa acontece algo parecido.

Você pode — e deve — definir a direção.

Mas precisa construir pessoas capazes de caminhar nessa direção sem perguntar a você onde colocar o pé a cada passo.

Por isso termino voltando exatamente à pergunta que fiz no início:

Se você precisasse ficar 30 dias longe da sua empresa, o que aconteceria?

Se essa pergunta causou algum desconforto, talvez ela tenha mostrado onde está o próximo trabalho que precisa ser feito.

Porque trabalhar muito pode ajudar você a construir um negócio.

Mas construir um negócio que continue funcionando quando você não estiver é o que começa a transformar esse negócio em uma verdadeira empresa.

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