
Raimundo Marques é empreendedor há mais de 10 anos, escritor e autor na área de gestão. Possui MBA em Administração de Empresas e formação internacional em Gestão de Pessoas e Liderança pela Ohio University. Atua com gestão, estratégia e desenvolvimento de negócios.
Este é o nosso primeiro artigo desta coluna. E, para começar essa conversa sobre negócios e gestão, escolhi falar sobre algo que está cada vez mais presente na vida de muita gente: o desejo de empreender.
Talvez você que esteja lendo este texto já tenha um negócio. Talvez esteja começando agora. Ou talvez tenha aquela ideia guardada há algum tempo, esperando o momento certo para sair do papel.
Seja qual for o seu caso, quero começar nossa conversa com uma pergunta:
Todo mundo que deseja empreender está realmente preparado para ter um negócio?
Empreender virou desejo de muita gente.
Para alguns, significa liberdade. Para outros, a possibilidade de ganhar mais dinheiro, não ter chefe ou finalmente transformar uma boa ideia em fonte de renda. E não há nada de errado nisso.
O problema começa quando confundimos a vontade de empreender com a capacidade de administrar um negócio.
São coisas bem diferentes.
Ao longo da minha trajetória profissional, trabalhando com gestão, liderando pessoas e acompanhando empresas em diferentes momentos, percebi algo que se repete com frequência: muitos negócios não enfrentam dificuldades porque seus donos sejam incompetentes ou porque o produto seja ruim.
Muitas vezes, o que falta é gestão.
E gestão não costuma aparecer nas fotografias bonitas do empreendedorismo.
Pouco se fala sobre a conta que vence antes do dinheiro entrar. Sobre contratar alguém e descobrir que liderar pessoas é muito mais difícil do que parecia. Sobre um mês excelente ser seguido por outro completamente diferente. Sobre precisar tomar uma decisão importante sem ter certeza de que ela dará certo.
Ter um negócio é também conviver com tudo isso.
É por esse motivo que sempre faço uma distinção que considero importante: saber fazer alguma coisa muito bem não significa, necessariamente, saber transformar aquilo em um bom negócio.
Uma pessoa pode cozinhar maravilhosamente e não saber administrar um restaurante. Pode ser excelente dentista e ter dificuldades para gerir uma clínica. Pode vender muito bem e, ainda assim, terminar o mês sem saber onde foi parar o dinheiro.
Isso acontece porque existe uma distância entre exercer uma atividade e administrar uma empresa.
E talvez uma das primeiras responsabilidades de quem decide empreender seja justamente reconhecer essa distância.
O dinheiro da empresa não é o seu dinheiro
Se você já empreende, quero que pense por alguns segundos: você consegue separar completamente o seu dinheiro do dinheiro da sua empresa?
Parece um conselho básico. Na prática, é um dos erros mais comuns dos pequenos negócios.
O dinheiro entra no caixa e rapidamente se mistura com despesas pessoais. A empresa paga uma conta da casa, o proprietário faz uma retirada sem planejamento, depois repõe alguma coisa e, quando chega o fim do mês, ninguém sabe exatamente quanto o negócio ganhou.
Vendeu muito? Sim.
Teve lucro? Ninguém sabe.
E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Uma empresa pode ter movimento, clientes e dinheiro entrando todos os dias e, ainda assim, estar financeiramente desorganizada.
Faturamento impressiona. Lucro sustenta. Caixa mantém a empresa viva.
Um livro de que gosto bastante, Os Segredos da Mente Milionária, de T. Harv Eker, trabalha uma ideia que considero muito pertinente: a forma como administramos o dinheiro que já temos é tão importante quanto nossa capacidade de ganhar mais.
Quando levamos esse raciocínio para uma empresa, ele faz ainda mais sentido.
Não adianta pensar apenas em vender mais se não sabemos administrar aquilo que já vendemos. Aumentar o faturamento de uma empresa desorganizada pode significar simplesmente aumentar uma desorganização que já existia.
Quem deseja empreender precisa aprender a olhar para números, mesmo que nunca tenha gostado deles.
Empreender também é aprender a lidar com pessoas
Existe outro ponto sobre o qual gosto muito de falar: pessoas.
Quando um negócio começa a crescer, normalmente o empreendedor percebe que não conseguirá fazer tudo sozinho. É nesse momento que chegam os primeiros funcionários — e, com eles, um novo desafio.
Contratar é relativamente fácil.
Liderar é outra história.
As pessoas precisam entender o que se espera delas. Precisam de orientação, acompanhamento, treinamento e feedback.
E o empreendedor que não aprende a liderar acaba frequentemente vivendo uma situação bastante conhecida: trabalha o dia inteiro, resolve todos os problemas e termina a jornada com a sensação de que, se ele não estiver presente, nada funciona.
Talvez você conheça algum empresário assim.
Talvez esse empresário seja você.
Isso não é crescimento.
É dependência.
Um negócio começa a amadurecer quando deixa de depender exclusivamente da memória, da presença e da disposição do seu proprietário para funcionar.
Trabalhar muito não é a mesma coisa que administrar bem
Talvez essa seja uma das ideias mais difíceis de aceitar.
Estamos acostumados a admirar quem acorda cedo, fecha tarde e “não para um minuto”. Existe mérito no trabalho, evidentemente.
Mas quantidade de trabalho não é, necessariamente, sinônimo de qualidade de gestão.
Há empresários trabalhando doze horas por dia porque construíram empresas extremamente dependentes deles.
Respondem clientes, conferem pagamentos, resolvem problemas de funcionários, fazem compras, vendem, cobram e ainda cuidam das redes sociais.
No final do dia estão exaustos.
No mês seguinte, repetem tudo novamente.
E aqui existe uma pergunta que considero importante:
Você está administrando o seu negócio ou apenas apagando os incêndios que ele produz todos os dias?
Empreender não deveria significar criar um emprego ainda mais pesado para si mesmo.
O objetivo precisa ser construir um negócio capaz de funcionar com organização, processos e responsabilidades bem definidas.
Então, todo mundo pode empreender?
Eu acredito que muita gente pode.
Mas existe uma diferença importante entre poder empreender e estar preparado para empreender.
Ninguém precisa nascer sabendo administrar uma empresa.
Gestão pode ser aprendida. Liderança pode ser desenvolvida. Organização financeira pode ser construída. Processos podem começar de maneira simples.
O problema não está em começar sem saber tudo.
Está em acreditar que não é preciso aprender.
Quem abre um pequeno negócio não precisa conhecer todos os termos utilizados nas grandes empresas. Não precisa começar com dezenas de planilhas, sistemas caros ou estruturas sofisticadas.
Precisa começar entendendo algumas coisas fundamentais: quanto entra, quanto sai, quanto sobra, quem são seus clientes, por que eles compram, quais são seus custos e o que precisa melhorar.
Parece simples.
E deveria ser.
Boa gestão não precisa ser complicada para funcionar.
Antes de abrir uma empresa, faça outra pergunta
Quando alguém pensa em empreender, geralmente a primeira pergunta é:
“Será que vai dar certo?”
Eu gostaria de propor uma pergunta anterior:
“Estou disposto a aprender a ser empresário?”
Porque gostar do produto não basta. Ter dinheiro para investir não basta. Trabalhar muito também não basta.
Empreender exige disposição para aprender, corrigir, organizar, ouvir, decidir e, principalmente, mudar.
Uma empresa cresce quando o seu dono também cresce como gestor.
Por isso, se você tem um negócio, está começando um ou ainda guarda aquela ideia que há anos pensa em tirar do papel, não quero que nosso primeiro artigo diminua sua vontade de empreender.
Muito pelo contrário.
Quero que você termine esta leitura com ainda mais vontade de construir alguma coisa — mas entendendo que coragem e gestão precisam caminhar juntas.
Além da coragem para começar, tenha humildade para aprender a gerir.
Porque abrir uma empresa pode acontecer em poucos dias.
Construir um negócio é outra história.
E é justamente sobre essa história que, a partir de agora, nós vamos conversar por aqui.
Nos encontramos no próximo artigo.