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Mais de 3 mil jumentos foram enviados do Piauí; entenda rota que abastece a China

Reportagem Sertão Atual

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Mais de 3,1 mil jumentos deixaram o Piauí com destino a frigoríficos da Bahia apenas em 2026. Após o abate, a carne pode ser destinada ao consumo humano, enquanto a pele é utilizada na produção do ejiao, uma gelatina tradicional da medicina chinesa feita a partir do colágeno extraído da pele dos animais.

Embora a atividade integre uma cadeia comercial voltada ao mercado internacional, pesquisadores afirmam que os ganhos econômicos para o Brasil são limitados e alertam que o atual ritmo de abates pode acelerar o risco de extinção do jumento nordestino.

Dados obtidos pelo Cidadeverde.com junto ao laboratório responsável pela certificação sanitária dos animais mostram que, somente nos últimos três meses, cerca de mil jumentos foram enviados do estado para frigoríficos baianos.

Atualmente, o Brasil possui apenas três frigoríficos autorizados a realizar o abate de jumentos, todos localizados na Bahia, nos municípios de Amargosa, Itapetinga e Simões Filho. A atividade é alvo de decisões judiciais, estudos científicos e projetos de lei que discutem desde as condições de manejo até a preservação da espécie.

Para entender como funciona essa cadeia, quais são os mecanismos de fiscalização, o destino dos animais e os argumentos de quem defende e de quem critica a atividade, o Cidadeverde.com ouviu pesquisadores, órgãos de defesa agropecuária e representantes da medicina veterinária.

Do interior do Piauí aos frigoríficos da Bahia

Diferentemente de outras cadeias pecuárias, o Piauí não possui fazendas voltadas exclusivamente para a criação de jumentos destinados ao abate.

Segundo a gerente de Trânsito Animal da Agência de Defesa Agropecuária do Piauí (Adapi), Daniela Rabelo, os animais são comprados em diferentes municípios e permanecem temporariamente em propriedades rurais cadastradas até que seja formada uma carga suficiente para o transporte à Bahia.

Essas propriedades funcionam apenas como pontos de concentração dos animais e são fiscalizadas pelo serviço oficial de defesa agropecuária. Na Bahia, os jumentos seguem para as chamadas Propriedades de Espera, onde permanecem antes de serem encaminhados aos frigoríficos.

Daniela Rabelo pontuou que todo o transporte interestadual depende da emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA).

“O controle da Adapi sobre os asininos que saem do estado é feito por meio da Guia de Trânsito Animal. Para ingressarem nos abatedouros, os asininos precisam transitar amparados pela GTA. Para a finalidade de abate não é exigido nenhum exame, mas a carga sai do Piauí lacrada na origem e o lacre só é rompido no estabelecimento de abate”, explicou.

A GTA é o documento oficial que registra a origem, o destino, a quantidade de animais transportados, a finalidade da viagem e os dados do transportador.

Antes da emissão da guia, a Adapi verifica se a propriedade está regularizada e atende às exigências sanitárias para a movimentação da espécie. A fiscalização continua durante o transporte por meio de barreiras fixas, operações móveis e ações conjuntas com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) e outros órgãos.

Caso sejam identificadas irregularidades, a agência pode impedir o transporte, autuar os responsáveis, apreender os animais e comunicar os órgãos competentes.

Mais de 3 mil jumentos enviados em sete meses

Um levantamento da Adapi mostra que, somente em 2026, foram emitidas GTA para o envio de 3.172 jumentos destinados ao abate na Bahia. Marcos Parente lidera a lista de municípios de origem, com 1.570 animais, seguido por Floriano (1.405), São Raimundo Nonato (147) e Campo Maior (50).

Segundo Daniela Rabelo, os animais foram encaminhados para dois frigoríficos baianos habilitados pelo Serviço de Inspeção Federal (SIF). A unidade de Amargosa recebeu 1.602 jumentos, enquanto a de Itapetinga recebeu 1.570.

A gerente destacou que o volume registrado neste ano é superior ao de 2025, quando decisões judiciais interromperam temporariamente o envio de animais para abate.

“Quando o trânsito foi suspenso, a emissão de GTA para esses estabelecimentos também foi suspensa. Por isso, o envio de jumentos para abate em 2025 foi bem inferior ao registrado em 2026”, afirmou.

Ela acrescentou que a Adapi não acompanha os valores de comercialização dos animais nem os custos cobrados pelos frigoríficos para a realização do abate.

Da Bahia à China: o destino dos jumentos

Depois de deixarem o Piauí, os jumentos seguem para frigoríficos na Bahia, onde são abatidos. A carne pode ser destinada ao consumo humano ou a outros mercados, mas é a pele que concentra o maior valor comercial. Dela é produzido o ejiao, gelatina utilizada há séculos pela medicina tradicional chinesa.

As informações sobre a exportação e a fiscalização dos frigoríficos habilitados para o comércio internacional são de responsabilidade do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), por meio do Serviço de Inspeção Federal (SIF). O Cidadeverde.com procurou o órgão para obter detalhes sobre o controle da atividade, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.

Segundo o diretor do Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA), Rui Leal, atualmente apenas um frigorífico está habilitado a exportar produtos derivados de jumentos para a China.

“O estabelecimento habilitado está localizado no município de Amargosa. Não tenho os dados do número de animais destinados do Piauí para a Bahia nem de outros estados. Essas informações o Ministério da Agricultura é que deve ter”, afirmou.

Ele explicou que há outro frigorífico, localizado em Itapetinga, autorizado a abater equídeos, mas com outra finalidade.” Existe outro estabelecimento em Itapetinga que abate equídeos, mas não exporta para a China. O abate de jumentos é pequeno. O frigorífico abate principalmente cavalos para atender o mercado pet da comunidade europeia”, explicou.

A pele vale mais que a carne

Segundo o médico-veterinário, professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e CEO do Grupo de Pesquisa e Extensão em Equídeos e Saúde Integrativa (Grupequi-Ufal), Pierre Barnabé Escodro, o interesse chinês está concentrado quase exclusivamente na pele dos animais.

“A carne acaba se tornando um subproduto. O grande interesse da China é a pele, utilizada para produzir o ejiao, uma gelatina que eles acreditam aumentar a longevidade, fortalecer o sistema imunológico e melhorar a capacidade sexual”, explicou.

O pesquisador ressalta, porém, que esses benefícios pertencem à tradição da medicina chinesa e não possuem comprovação científica.” Até o momento não existe comprovação científica da eficácia desse produto. Trata-se de uma prática cultural, não baseada em evidências”, destacou.

Segundo Escodro, a redução da população de jumentos na própria China levou o país a buscar matéria-prima em outros continentes.

“A China já reduziu drasticamente a população de jumentos em vários países africanos. Agora essa demanda chegou à América do Sul, principalmente ao Brasil, onde ainda existia uma população significativa de jumentos nordestinos”, afirmou.

Embora movimente uma cadeia internacional, Escodro afirma que pesquisas conduzidas por especialistas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) apontam que o impacto econômico da atividade para o Brasil é reduzido.

“Os estudos mostram que o abate de jumentos não traz benefícios econômicos relevantes para o Brasil. Quando esse retorno é comparado aos riscos para a espécie, os prejuízos são maiores”, afirmou.

Segundo ele, essa avaliação levou pesquisadores de diferentes instituições à elaboração da Declaração de Maceió, documento que defende medidas voltadas à conservação do jumento nordestino. A principal preocupação dos especialistas é a redução contínua da população de jumentos no Nordeste.

Projeções elaboradas pelo grupo de pesquisa indicam que, se o ritmo atual de abates for mantido, o jumento nordestino poderá desaparecer do Brasil nos próximos anos. Segundo o pesquisador, esse cenário já foi observado em outros países que abasteciam o mercado chinês.

“Se essa projeção continuar, até 2030 poderemos não ter mais jumentos nordestinos no Brasil. Não estamos falando das raças Pêga ou Brasileira, mas justamente do jumento nordestino, que é o animal abatido na Bahia. Somália, Egito, Costa do Marfim, Botsuana e Senegal enfrentaram problemas semelhantes antes de a procura chegar ao Brasil”, alertou.

Bem-estar animal, preocupação com doenças e situação dos frigoríficos 

Além da redução da população de jumentos, pesquisadores também demonstram preocupação com o bem-estar animal e as condições de manejo ao longo da cadeia produtiva.

Escodro afirma que o Grupequi-Ufal realizou estudos de campo para avaliar as condições em que parte desses animais era mantida antes do abate. Um dos levantamentos ocorreu em uma propriedade localizada em Canudos (BA).

“Quando chegamos ao local havia cerca de 800 animais. Apenas 160 permaneceram vivos. Encontramos doenças infecciosas, animais com fome, alterações nutricionais, doenças metabólicas e zoonoses. Foi um estudo inédito que mostrou internacionalmente essa realidade”, relatou.

Segundo o pesquisador, os estudos também identificaram falhas estruturais na cadeia produtiva. “Hoje não existe uma cadeia produtiva estruturada para os jumentos. O que existe é um processo extrativista. Encontramos animais de diferentes idades, sem critérios relacionados ao peso ou às características produtivas”, afirmou.

Outra preocupação levantada pelos pesquisadores é o controle sanitário durante toda a cadeia. Escodro destaca que enfermidades como a anemia infecciosa equina e o mormo exigem monitoramento permanente.

“Temos preocupação com doenças como a anemia infecciosa equina e o mormo. A anemia pode atingir outros equídeos, enquanto o mormo é uma zoonose. Por isso defendemos que toda a cadeia tenha um controle sanitário rigoroso”, explicou.

Os apontamentos, entretanto, diferem da posição dos órgãos oficiais de defesa agropecuária. A Adapi sustenta que toda a movimentação dos animais ocorre mediante emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), fiscalização nas rodovias e cumprimento das exigências previstas na legislação sanitária.

Justiça determina medidas para impedir o abate

As discussões também chegaram ao Judiciário. Em abril deste ano, a 1ª Vara Federal da Seção Judiciária da Bahia julgou parcialmente procedente uma Ação Civil Pública proposta por entidades de proteção animal contra a União, o Estado da Bahia e a Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab).

Na decisão, a juíza federal Arali Maciel Duarte determinou que os órgãos públicos adotem medidas para impedir o abate de jumentos, muares e bardotos na Bahia, além de proibir a captura, a compra e o confinamento desses animais para essa finalidade e promover o encaminhamento deles para santuários de proteção.

Ao fundamentar a sentença, a magistrada afirmou que as provas reunidas no processo apontam falhas no manejo, privação de água e alimentação, elevada mortalidade, presença de animais doentes, descarte inadequado de carcaças, problemas no transporte e riscos de disseminação de zoonoses.

A decisão também cita estudos que indicam redução significativa da população de asininos, especialmente no Nordeste, e destaca a importância histórica e cultural do jumento para a região.

Apesar disso, a sentença não determina o fechamento dos frigoríficos, uma vez que essas unidades podem exercer outras atividades legalmente autorizadas. Por este motivo, um dos frigoríficos continua habilitado para exportar produtos destinados ao mercado chinês. Segundo o diretor do CRMV-BA, Rui Leal, a unidade localizada em Amargosa permanece em funcionamento. “O estabelecimento que está habilitado para exportação para a China continua ativo, funcionando normalmente”, afirmou.

Ele reforçou que os dados oficiais sobre exportação e movimentação de animais são acompanhados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária, responsável pela fiscalização das unidades por meio do Serviço de Inspeção Federal (SIF). Já o frigorífico de Itapetinga, segundo Rui Leal, realiza principalmente o abate de cavalos destinados ao mercado pet europeu, sendo reduzido o número de jumentos processados na unidade.

Projetos de lei, alternativas ao abate e um debate sem consenso

Enquanto o tema segue em discussão na Justiça, propostas legislativas também buscam restringir o abate de equídeos no país.

No Congresso Nacional tramita o Projeto de Lei nº 2.387/2022, que propõe a proibição do abate de equídeos em todo o Brasil. Na Bahia, onde estão os frigoríficos responsáveis por essa atividade, também está em tramitação o Projeto de Lei nº 24.465/2022, que trata especificamente da proibição do abate de jumentos no estado. Na avaliação do professor Pierre Barnabé Escodro, a proposta baiana pode produzir efeitos mais imediatos.

“A lei federal trata do abate de todos os equídeos, por isso pode demandar uma discussão mais ampla. Já o projeto da Bahia trata especificamente dos jumentos e pode ter impacto direto justamente onde estão localizados os frigoríficos”, avaliou.

Alternativas ao abate

Além da proibição da atividade, pesquisadores defendem alternativas econômicas para preservar a espécie. Uma delas é a reinserção do jumento na agricultura familiar. Segundo Escodro, o retorno do uso do animal em pequenas propriedades acompanha uma tendência observada em outros países.

“Hoje existe um movimento mundial para o retorno dos equídeos ao arado em pequenas propriedades. O jumento pode voltar a ter importância na agricultura familiar, contribuindo para melhorar a aeração do solo e fortalecendo esse modelo de produção”, afirmou.

Outra possibilidade apontada pelo pesquisador é a ampliação de projetos de terapias assistidas por animais. Escodro também cita pesquisas envolvendo a produção de bioprodutos, como leite de jumenta e soros, embora ressalte que essas iniciativas ainda estão em fase de desenvolvimento. Outra proposta defendida pelos pesquisadores é o fortalecimento de centros de conservação voltados à preservação genética do jumento nordestino. 

O pesquisador também defende que os estados nordestinos reconheçam oficialmente o jumento como patrimônio histórico e cultural. “Os governos do Nordeste poderiam reconhecer o jumento como patrimônio histórico e cultural. Isso fortaleceria a preservação da espécie e poderia abrir caminho para um reconhecimento em âmbito nacional”, afirmou.

Procurado pelo Cidadeverde.com, o Ministério da Agricultura e Pecuária informou que a demanda da reportagem foi recebida e está sendo analisada pela área responsável. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

Fonte: Cidade Verde por Rayane Venancio

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