O Brasil é o maior mercado de defensivos agrícolas do mundo, com vendas que superaram R$ 60 bilhões em 2023, segundo dados da ANDEF. Esse volume reflete tanto a escala da agricultura nacional quanto a complexidade fitossanitária de um país tropical, onde as condições climáticas favorecem pragas, doenças e plantas daninhas durante praticamente o ano inteiro.
Mas o uso intensivo de defensivos traz consigo um desafio crescente: a resistência. Pragas, patógenos e plantas daninhas que desenvolvem tolerância aos produtos mais utilizados são hoje uma das principais ameaças à produtividade agrícola.
Entender como os defensivos funcionam e por que a rotação entre mecanismos de ação é indispensável é o ponto de partida para um manejo que preserve a eficácia das ferramentas disponíveis.
Como os defensivos são classificados
A classificação dos defensivos agrícolas pode seguir diferentes critérios: o organismo-alvo, a classe química ou o mecanismo de ação. Para fins de manejo de resistência, a classificação por mecanismo de ação é a mais relevante, pois produtos do mesmo mecanismo exercem a mesma pressão seletiva sobre a população-alvo, independentemente do nome comercial ou da classe química.
Três organizações internacionais desenvolveram sistemas de classificação por mecanismo de ação que são referência global:
| Organização | Sigla | Grupo de produtos classificados |
| Insecticide Resistance Action Committee | IRAC | Inseticidas e acaricidas |
| Herbicide Resistance Action Committee | HRAC | Herbicidas |
| Fungicide Resistance Action Committee | FRAC | Fungicidas |
Cada comitê atribui códigos numéricos ou alfanuméricos aos grupos de produtos com o mesmo mecanismo de ação. Esses códigos aparecem nas embalagens dos produtos registrados no Brasil e são a ferramenta prática para planejar a rotação.
Inseticidas: grupos e mecanismos de ação
Como os inseticidas atuam no organismo das pragas
Os inseticidas interferem em processos fisiológicos essenciais dos insetos, como a transmissão nervosa, a respiração celular ou o desenvolvimento. Os grupos com maior relevância no agronegócio brasileiro incluem:
- Organofosforados e carbamatos (Grupos 1A e 1B do IRAC): inibem a enzima acetilcolinesterase, responsável pela regulação dos impulsos nervosos. São grupos antigos, com casos de resistência documentados em diversas pragas.
- Piretroides (Grupo 3A): modulam os canais de sódio nas membranas nervosas, causando hiperexcitação e paralisia. Amplamente utilizados, mas com histórico extenso de resistência em pragas como a Spodoptera frugiperda.
- Neonicotinoides (Grupo 4A): agonistas dos receptores nicotínicos de acetilcolina, com ação sistêmica que permite uso no tratamento de sementes. Altamente eficazes contra insetos sugadores.
- Diamidas (Grupo 28): ativam os receptores de rianodina, causando liberação descontrolada de cálcio nas células musculares. São um dos grupos mais modernos e com menor histórico de resistência até o momento.
O problema da resistência cruzada
A resistência cruzada ocorre quando um mecanismo de resistência desenvolvido contra um produto confere tolerância a outros produtos do mesmo grupo ou de grupos com mecanismo de ação semelhante.
Uma praga resistente a um piretroide pode apresentar resistência cruzada a outros piretroides sem nunca ter sido exposta a eles, o que reforça a necessidade de rotacionar entre grupos distintos.
Herbicidas: a diversidade de mecanismos e o desafio das resistentes
Os herbicidas atuam sobre processos metabólicos específicos das plantas, como a fotossíntese, a síntese de aminoácidos ou a divisão celular. A classificação do HRAC organiza esses produtos em grupos identificados por letras.
Os principais grupos e seus alvos
- Grupo A (inibidores de ACCase): atuam na síntese de ácidos graxos, controlando gramíneas. Incluem os aryloxifenoxipropionatos e ciclohexanodionas.
- Grupo B (inibidores de ALS): bloqueiam a enzima acetolactato sintase, essencial para a síntese de aminoácidos de cadeia ramificada. É o grupo com maior número de casos de resistência documentados no mundo.
- Grupo G (inibidores de EPSPs): inclui o glifosato, o herbicida mais utilizado na história da agricultura. A resistência ao glifosato em espécies como buva e capim-amargoso é hoje um dos maiores desafios do manejo de plantas daninhas no Brasil.
- Grupo K (inibidores de tubulina): atuam na divisão celular, sendo utilizados principalmente como pré-emergentes para controle de gramíneas.
Por que a resistência a herbicidas avança tão rapidamente
Plantas daninhas com ciclos de vida anuais e alta produção de sementes evoluem rapidamente sob pressão seletiva. Uma única planta de buva pode produzir mais de 200.000 sementes por ciclo, o que significa que mesmo uma frequência baixa de indivíduos resistentes na população pode se traduzir em dominância da resistência em poucas gerações.
O portal Mais Agro detalha as diferenças entre herbicidas seletivos e não seletivos e como esses conceitos se aplicam ao planejamento do manejo de daninhas em diferentes culturas.
Fungicidas: grupos, multissítios e o manejo da resistência
Os fungicidas atuam sobre processos biológicos específicos dos fungos, como a síntese de ergosterol, a respiração mitocondrial ou a divisão celular. A classificação do FRAC organiza esses produtos em grupos com base no sítio de ação.
Fungicidas sítio-específicos versus multissítios
Os fungicidas sítio-específicos atuam em um único ponto do metabolismo do fungo, o que os torna altamente eficazes, mas também mais vulneráveis ao desenvolvimento de resistência. Triazóis, estrobilurinas e carboxamidas são exemplos de grupos sítio-específicos utilizados na sojicultura brasileira.
Os fungicidas multissítios atuam em múltiplos pontos do metabolismo simultaneamente, o que torna praticamente impossível para o fungo desenvolver resistência a todos os sítios ao mesmo tempo.
Mancozebe, clorotalonil e folpete são exemplos desse grupo. Por isso, os multissítios são componentes essenciais de qualquer programa de manejo de resistência a fungicidas.
A situação da resistência a fungicidas no Brasil
A redução de sensibilidade de Phakopsora pachyrhizi, o agente da ferrugem asiática, a alguns triazóis é um dos casos mais documentados no Brasil.
Esse fenômeno motivou a inclusão obrigatória de multissítios nas misturas fungicidas recomendadas para a cultura da soja, uma mudança que trouxe melhora mensurável nos resultados de controle.
O portal Mais Agro aprofunda o papel dos inseticidas carbamatos como parte do entendimento mais amplo sobre os diferentes grupos de defensivos e seus usos específicos.
Como planejar a rotação de mecanismos de ação
A rotação de mecanismos de ação é o principal instrumento disponível para retardar o desenvolvimento de resistência. Alguns princípios práticos orientam esse planejamento:
- Identificar os grupos pelos códigos IRAC, HRAC e FRAC nas embalagens antes de comprar ou recomendar produtos. Dois produtos com nomes comerciais diferentes podem pertencer ao mesmo grupo e não oferecer rotação real.
- Alternar grupos a cada aplicação ou a cada safra, dependendo da pressão da praga ou doença e do histórico de resistência na região.
- Combinar produtos de grupos diferentes em misturas quando a situação exigir aplicações frequentes, reduzindo a pressão seletiva sobre cada grupo individualmente.
- Monitorar a eficácia das aplicações e investigar falhas de controle que podem indicar o início do desenvolvimento de resistência antes que ela se estabeleça na população.
Conhecer o produto é conhecer o manejo
A escolha de um defensivo agrícola começa muito antes da compra. Começa no entendimento de como ele atua, qual é seu grupo de resistência e como ele se encaixa na sequência de produtos já utilizados na propriedade.
Produtores e técnicos que dominam essa lógica tomam decisões mais consistentes, preservam a eficácia dos produtos disponíveis por mais tempo e constroem programas de manejo que funcionam não apenas na safra atual, mas nas próximas também.
Num cenário em que o desenvolvimento de novos mecanismos de ação é cada vez mais lento e custoso, preservar os que existem é uma responsabilidade de todos os elos da cadeia.
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