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O encantador espírito natalino!

(Uma crônica de generosidade e empatia)…

Reportagem Sertão Atual

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Em 25 de dezembro, dia em que se comemora o nascimento de Jesus, fui surpreendido com uma súplica de socorro de um amigo em extrema dificuldade financeira. Desempregado, doente, com contas básicas, como luz e água, atrasadas e, o pior, sem ter o que comer.

O Piauí é o terceiro estado com maior proporção de domicílios com insegurança alimentar do País, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em 14 de outubro de 2025. No Brasil, 18,9 milhões de residências apresentaram algum nível de insegurança alimentar entre 2023 e 2024. Precisamente por essas bandas, 1,4 milhão de piauienses foram afetados. É muita gente passando fome!

Sobre ajudar os despossuídos, disse Cristo em Mateus 25:40: “Em verdade vos digo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”, referindo-se a alimentar, vestir, cuidar e visitar os necessitados. Outras passagens importantes incluem: “Pois eu estava faminto, e vocês me deram de comer… era estrangeiro, e vocês me acolheram…” (Mateus 25:35-40). “Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres! e você terá um tesouro no Céu. Depois venha e siga-me!” (Mateus 19:21).

Quem sou eu para discordar de uma vírgula do Messias?! Só um ajustezinho na parte em que, segundo Mateus, o Salvador teria dito para se vender tudo e doar aos carentes. Pois bem! Talvez dividir a metade, ou um terço, um décimo… Quer saber?! um prato de feijão com arroz a alguém que nada possui já o provê por um dia. Resumindo princípios bíblicos: “O pouco com Deus é muito”.

Falando assim, o leitor deve me imaginar um homem cheio de fé, frequentador assíduo de templos religiosos, até mesmo um estudioso das Sagradas Escrituras. Quem me dera! Sou uma criatura comum, sem nada especial, quiçá um fracassado em muitos quesitos (incluindo a crença); não fracassei, entretanto, em altruísmo, em lealdade.

Essas características me fizeram ser chamado de “otário” (ingênuo); o segundo adjetivo me pôs, algumas vezes, no centro de confusões que não eram minhas. Porém, até em momentos tal qual o apontado no início do texto, em que eu nem sequer consegui pagar minhas próprias contas de fim de mês, tirei um pouco do que eu tinha para suprir uma necessidade emergente de um desvalido.

Imagine o quanto deve ser constrangedor ficar nu diante de alguém expondo suas vulnerabilidades! Tenta sentir o restinho de dignidade se esvaindo pelos lábios daquele que se vê obrigado a despir-se do orgulho, do pudor! Claro que os abastados, com a postura dos que se arrogam grandes empreendedores, desdenham de situações de penúria usando o discurso firme de que certos indivíduos sejam pobres por preguiça. Não ocorre à estirpe privilegiada — e longe de mim querer tirar seu mérito — que milhares de pessoas trabalham a vida inteira, tentam economizar, lutam por melhorias… contudo a fartura, por questões que não deram causa, nunca chega a elas.

Parei de fazer algumas contas porque estavam me adoecendo; mas, só para se ter uma ideia, desde que ingressei no serviço público, o governo já arrancou de mim, direto da folha de pagamento, perto de 2 milhões de reais com imposto de renda, previdência e plano de saúde. Apenas no ano de 2025, foram aproximadamente 76 mil reais. E 2026 promete ser um ano infeliz para a população. A lei estadual 328, de 17 de dezembro, Os servidores, individualmente, não terão aumento na contribuição previdenciária, que já é bem alta para todos e desumana a aposentados e pensionistas. Ou seja, quanto mais o Estado nos tira, menor nosso poder de compra e menos condições de honrar compromissos com credores: uma espécie de efeito cascata que pode desaquecer a economia, falir empresas e levar mais gente à pobreza. Não vai demorar, apagar-nos-ão a designação de “gente”.

Como “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, não vi manifestações de políticos nem de ativistas de causas sociais. A mim me parece que — apesar de vivermos em uma nação com quase 80% das famílias endividadas e mais de 72 milhões de brasileiros com contas em atraso, principalmente em um estado que amarga índices deploráveis em educação, emprego e endividamento da máquina pública — há uns poucos demasiadamente confortáveis. É como se esse grupo (verdadeira elite, e também uns dublês) habitasse outra dimensão. Veja-se, por exemplo, nas redes sociais, o arreganhar branco de dentes de pseudolideranças desejando “Boas Festas” aos desprovidos mortais!

Ajudar efetivamente, só nada! Por isso prezo a expressão “quem não vive para servir não serve para viver”, atribuída a Mahatma Gandhi. Assim sendo, se você não me foi útil, dispenso suas congratulações. Frases optativas frias não me aquecem, e palavras vazias não enchem meu bucho. Caso não tenha interesse em me ofertar assistência, rechaço seu aperto de mão, repudio seu ar falso de bom moço. E se eu morrer antes de você, tenha um único ato de decência e coerência e não compareça ao velório! Enquanto estou vivo, não “chegou junto” e julgou meu pedido impossível; morto, mantenha de mim a maior distância possível!

Flávio José Pereira da Silva [Flávio de Ostanila] é Professor, escritor e jornalista.

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