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Investigações miram o tráfico de drogas e braço financeiro de facções no Piauí

Reportagem Sertão Atual

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A atuação interinstitucional tem aprimorado e reforçado o enfrentamento às facções criminosas no Piauí, com a união das ações de repressão em todo o estado e investigações de inteligência que miram a atividade financeira dessas organizações, onde está o dinheiro que sustenta o tráfico e a violência desses grupos.

Exemplo disso é o trabalho conjunto entre a Polícia Civil (PC-PI), por meio do Departamento de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) e de delegacias especializadas, e o Ministério Público (MP-PI), com o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

“Evitamos a sobreposição de investigações, com cada órgão assumindo um braço. A ideia é que o Gaeco foque mais no segundo e no terceiro andar do comando das facções, e o Draco atue, em regra, no primeiro andar”, destaca o promotor de Justiça José William, subcoordenador do Gaeco.

Da chegada do PCC à criação do Draco

Segundo José William, os primeiros registros da atuação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) no Piauí datam de 2002. “O foco inicial deles não era o tráfico de drogas, mas sim assaltos a bancos e a carros-fortes. Eles vinham dar apoio logístico e treinamento”, pontua.

Apesar disso, o reconhecimento oficial só veio em meados de 2020. “Foi quando a Procuradoria-Geral de Justiça e o Gaeco reconheceram formalmente a existência dessas organizações criminosas. As primeiras denúncias contra o PCC no estado foram feitas nesse período”, completa o promotor.

Com a mudança de estratégia e o reconhecimento da presença das facções no Piauí, percebeu-se a necessidade de uma atuação em rede, devido à complexidade das investigações. Foi a partir daí que se iniciou a criação de uma estrutura integrada e especializada para o enfrentamento dessas organizações.

“Ficou claro que as delegacias comuns não teriam condições de investigar de forma isolada, porque são focadas apenas no fato pontual. No caso das facções, as investigações precisam focar na entidade criminosa, exigindo uma atuação permanente e especializada”, ressalta José William.

Foi desse trabalho que surgiu o Draco. “É algo totalmente novo, por isso parabenizo a segurança pública do estado. Passamos a ter uma delegacia especializada com foco permanente na organização criminosa, e não apenas investigando fatos isolados”, destaca o subcoordenador do Gaeco.

Rotas do tráfico e ocupação territorial

A presença das facções no Piauí está relacionada, basicamente, às rotas do tráfico de drogas. De acordo com o subcoordenador do Gaeco, uma delas é dominada pelo PCC, que usa o estado como passagem para o transporte de entorpecentes que saem do Paraguai e entram no país pelo Mato Grosso.

“Ela passa principalmente pelas rodovias do Sul do estado e entra pelo Ceará, muitas vezes passando pela região de Picos e, eventualmente, por Piripiri, usando estradas vicinais. O interesse nacional das facções é justamente dominar e ter o controle dessas rotas dentro de cada estado”, explica o promotor.

A outra rota, dominada pelo Comando Vermelho (CV), utiliza o litoral piauiense e o de estados vizinhos para o transporte de cocaína e outros contrabandos em embarcações que saem do Suriname e da Venezuela. O grupo se aproveita da falta de estrutura de fiscalização das forças de segurança nessas áreas.

“Eles usam o litoral Norte do Piauí para deixar mercadorias, pegar novas cargas e reabastecer. O litoral piauiense é pequeno, mas, somado ao do Ceará e ao do Maranhão, que não possuem uma estrutura portuária grande, forma-se um trecho de centenas de quilômetros basicamente sem proteção”, alerta o promotor.

Apesar disso, o subcoordenador do Gaeco enfatiza que a atuação policial impede que essas áreas sejam controladas pelas facções.

“Podemos afirmar que não temos territórios dominados pelo crime, diferentemente do que já ocorre em estados como Ceará, Bahia e Rio de Janeiro”, garante.

O dinheiro do tráfico

As drogas transportadas por essas rotas geram milhões em recursos para as facções. Conforme dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram apreendidas 76,6 toneladas de entorpecentes no Piauí pelas forças de segurança em 2025, cerca de 32 toneladas a mais que no ano anterior.

“Fizemos um levantamento, em parceria com o Maranhão, e constatamos que apenas uma boca de fumo lucrava R$ 400 mil por mês. Isso pode parecer pouco, mas coloque esse valor dentro de uma organização pequena, estruturada dentro de uma facção maior. É muito dinheiro”, alerta o promotor.

Parte desse volume fica com traficantes locais, mas os maiores montantes vão para as lideranças em outros estados. “O dinheiro do varejo é pulverizado, já o capital principal vai sustentar o topo da pirâmide, sendo aplicado em estruturas financeiras muito mais elaboradas”, afirma José William.

No caso do PCC, a ideia não é apenas transformar o dinheiro ilícito em lícito, ou seja, lavá-lo, mas continuar ganhando dinheiro. O dinheiro inicial vai sendo transformado em um dinheiro mais limpo, e assim novos recursos vão surgindo.

Atuação do MP na ação penal e nas investigações

Diante desse cenário, o Gaeco conta atualmente com duas promotorias que atuam na Vara de Organização Criminosa. Uma delas é a 47ª Promotoria de Justiça de Teresina, que recebe os inquéritos policiais produzidos pelo Draco e formula ao Judiciário as denúncias contra os faccionados.

“A principal atividade da promotoria é capitanear a ação penal. Trabalhamos da melhor forma possível todo o material probatório colhido na fase policial, de maneira a tentar convencer o magistrado da procedência da denúncia e obter a condenação desses faccionados”, pontua o promotor Cláudio Soeiro.

Além disso, a promotoria auxilia nas investigações e realiza diligências com apoio do Gaeco e da Polícia Federal (PF).

“Atuamos na parte pré-processual, nas representações policiais, nos pedidos de busca e apreensão, prisões e extração de dados de celulares e computadores”, menciona o promotor.

Nesse sentido, o titular da 47ª Promotoria aponta que a identificação e o combate aos núcleos econômicos das facções devem ser o principal objetivo das investigações de segurança pública, já que esses recursos fomentam o crime em todo o país e financiam o fortalecimento desses grupos.

“Essa questão é de suma importância. Acredito que isso deve ser o principal objetivo de uma investigação: tentar chegar ao núcleo financeiro da facção, porque o poderio da facção advém do poderio econômico que ela detém a partir das atividades criminosas que ela pratica”, destaca Soeiro.

Operação Carbono Oculto e a lavagem de dinheiro

Ao tratar do braço financeiro, o promotor cita a Operação Carbono Oculto. Ele explica que o PCC local não tem ligação direta com a operação e que a lavagem ocorre no nível nacional, onde, segundo ele, a facção acumulou grande riqueza com o domínio das rotas.

É nesse contexto que ocorre a Operação Carbono Oculto 86, que identificou a infiltração do PCC no setor de combustíveis no Piauí e em outros estados. A facção usava empresas de fachada, fundos de investimento e fintechs para lavar dinheiro, fraudar o mercado de combustíveis e ocultar patrimônio.

“O PCC criou uma fintech em São Paulo e criou esse grande fundo, misturando nele o dinheiro sujo da droga com o dinheiro limpo dos negócios que já estavam devidamente lavados. Eles fizeram isso aproveitando as brechas que o sistema financeiro brasileiro deixa”, esclarece o subcoordenador do Gaeco.

De acordo com as investigações, as empresas investigadas teriam movimentado R$ 5 bilhões. A ação resultou na interdição de 49 postos de combustíveis em Teresina, no interior do Piauí, no Maranhão e no Tocantins, além da apreensão de relógios de grife, carros de luxo e quatro aeronaves.

“Essa com certeza foi a maior operação relacionada às facções. Só que a operação feita aqui é apenas um braço. Ela é uma investigação própria, tanto que tem processo próprio, mas não se esgotou no Piauí. Há desdobramentos e investigações na Bahia e no Tocantins, pois é é uma rede nacional”, afirma José William.

Outras frentes de infiltração das facções

Para o sociólogo Marcondes Brito, professor do Instituto Federal do Piauí (IFPI), a Carbono Oculto é um marco no combate às facções no estado. “Foi um salto interessante, pois os grupos criminosos especificamente vinculados ao tráfico de drogas têm usado fintechs e organizações da sociedade civil para lavar dinheiro de várias formas, inclusive com ONGs e outros grupos”, avalia.

Por outro lado, ele ressalta a necessidade de atuação contra outras ramificações desses grupos, não apenas no Piauí, mas em todo o país. “O nível de infiltração que esses sujeitos têm tentado construir na política exige uma ação específica também por parte das polícias”, alerta.

Outro segmento é o da venda de veículos seminovos e de ferros-velhos. “É algo altamente líquido, conseguem transformar um bem adquirido ilicitamente em dinheiro lícito rapidamente. Se o carro vale R$ 100 mil, ele é vendido por R$ 70 mil e convertido em uma rápida liquidez”, cita o promotor.

É diante desse cenário que o subcoordenador do Gaeco aponta a necessidade de ações para o fortalecimento desse combate às facções e à violência oriunda das suas atividades, como o treinamento constante das forças policiais e o investimento em ferramentas tecnológicas para ampliar as investigações.

“Precisamos de mais câmeras inteligentes e sistemas de inteligência artificial integrados nas ruas. Quando uma pessoa com mandado de prisão passa, o sistema deve reconhecer o rosto e acionar a segurança imediatamente, sem a necessidade de abordagens generalizadas, que hoje são exceções”, disse.

Por fim, o promotor afirmou que de nada adianta todo esse trabalho se os alvos das investigações não permanecerem presos, mesmo diante de todas as provas apresentadas nos autos. “Faccionado tem que ser preso. Não estou dizendo que tem que ser morto ou torturado, estou dizendo que, se provou que aquela pessoa é faccionada, ela tem que ser presa”, enfatiza.

“Qual é a responsabilidade de um juiz que solta um criminoso desse perfil? A minha cobrança não diz respeito à atuação policial, mas ao fato de que, muitas vezes, o magistrado solta o indivíduo acreditando que alguém que comete crimes graves vai simplesmente se regenerar. Ele continua na atividade até o dia em que mata ou morre, gerando um enorme transtorno social”, finaliza o membro do MP-PI.

Fonte: Cidade Verde

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